sábado, 20 de março de 2010

A sombra

Ainda me lembro de tudo como se fosse hoje,
Foi na tarde de 20 de Setembro de 2005, eu estava no campo cevadeiro a apreciar o belo dia que se fazia com a minha namorada, quando vi um rapaz passar lá para os lados do pelado, pareceu me ele, mas como o chamei e não me respondeu não ligue e continuei a apreciar aquela tarde.
Já tinha escurecido, e eu decidi voltar para casa, qual o meu espanto ao passar pelo pelado, ainda estava lá ele, que passara 3 horas antes por mim, aproximei e quando confirmei que era mesmo ele, qual o meu espanto, vi uma tristeza imensa no seu rosto coisa que nunca julguei poder ver nele!
Perguntei lhe como tinha corrido o treino, ele não me respondeu, percebi logo o que se passara, não tinha sido aceite no Alenquer.
E de certa maneira percebi a sua tristeza, e de certa maneira percebi o porque de ele passar 3 horas a olhar para um campo vazio de futebol, era como se tivesse a despedir...
Eu animei-o e disse lhe para não ir a baixo e para não desistir do seu sonho, porque ele era pura magia, e disse: afinal és o Quaresma, não podes ficar assim por um clubezito tens tempo para crescer e para mostrar o que realmente vales.
E assim foi, no dias a seguir lá o via como sempre de manha a espalhar a sua magia, e mais que uma grande finta, um grande livre ou um grande remate ele espalhava um coisa que raramente vi alguém fazer, espalhava alegria por todos que jogavam e por todos que assistiam.
Ele ficava na escola sempre ate as 15h15 mesmo quando saia as 13h, e como sempre lá íamos nós o grupinho de sempre
Assistir não as, fintas ou grandes golos, mas assistir como já referi á alegria que aquele menino que jogava sempre de cabeça para baixo “contrariando a tese que os grandes jogadores jogam sempre de cabeça levantada” espalhava e contagiava com o seu sorriso enquanto a cada pedalada e a cada sprint, o menino protegido dele o Marcelo entoava em voz bem alta para todos ouvirem, os OLÉS, olés esses que acabavam por contagiar nas bancadas aqueles que como nos assistiam á aquele esbanjar de alegria.
Ele era um jogador de selecção na minha opinião, digo isto porque ainda hoje jogo futebol Professional e sei bem o que é um grande jogador, ele tinha um remate e um velocidade muito acima da media alem de uma eficácia de 95% nas bolas paradas, os 5% que não era golo em bolas paradas, batiam sempre nos ferros!
Ele estava numa fase estonteante, era conhecido e muito popular, todos gostavam dele e era o Herói dos irmãos, dos quais ele muito falava, especialmente d e Márcio, ele dizia com toda a convicção que o irmão iria ser o melhor guarda-redes do mundo, via se no olhar dele, que acreditava mesmo naquilo que dizia! Ele por resultado do grande momento que passava, acabou por ser observado por olheiros do Sporting, e o Sporting o quis levar para Alcochete, para junto de jogadores como o Moutinho e Veloso, mas eles para o levarem para lá, precisava de autorização do pai, e o pai não autorizou, com o pretexto de que ele devia era estudar e não jogar a bola!
Nesse mesmo dia ele me comunicou a atitude do pai, e nesse mesmo instante me jurou que não voltaria a escola e que não voltaria a jogar mais á bola, eu pensei “ele só esta chateado, amanha lá estará ele a hora de almoço” mas não estava, os dias, semanas e meses passaram e ele nunca mais apareceu nem na escola nem nos ringues, foi como se uma parte daquele grupinho tivesse morrido, nunca mais as horas de almoço foram as mesmas! E hoje dia 10 de Março de 2010, quase 5 anos depois o voltei a ver jogar, não deixei que ele me visse, escondi me, e fiquei 3 horas a observar a, aquilo que no primeiro toque na bola reparei, que estava apenas a sombra do grande jogador que foi, la estava ele a jogar de cabeça para baixo, alem do aparente excesso de peso, era gritante a falta de confiança dele a cada vez que pegava na bola, sempre com receio, fez numa arrancada ou outra menos conseguida, numa finta muito pesada ou num remate muito mal feito, reparei que havia algo que ali faltava muito mais que a confiança e forma física e técnica, A ALEGRIA, em 3 horas, não vi nenhum traço de alegria, só de alguma angústia como se tivesse de provar, não aos outros mas a si mesmo o que foi no passado, um grande jogador!
Assim parti triste, sem lhe dizer nada, porque me partiu o coração ver ele na situação que estava naquele campo, não me refiro de maneira alguma a condição física e tecnica dele, refiro me sim, a falta de confiança e á perda de alegria, a mesma alegria que durante 2 anos, muita gente juntou nas bancadas da escola a hora de almoço para assistir á aquele esbanjar de alegria e entoar os famosos olés!


Paulo carvalho

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